Dra. Suyaluane Melo, médica ginecologista e obstetra em Aracaju (SE), em consultório moderno, utilizando modelo anatômico do sistema reprodutor feminino para orientar pacientes sobre saúde ginecológica, contracepção e prevenção.

Alguns anticoncepcionais podem aumentar o risco de trombose, principalmente os métodos hormonais combinados que contêm estrogênio. Para a maioria das mulheres saudáveis, porém, o risco absoluto permanece baixo. A segurança depende do método escolhido, da história clínica e da presença de fatores como trombose prévia, enxaqueca com aura, tabagismo, puerpério e imobilização prolongada.[1–4]

Resposta rápida: nem todo anticoncepcional aumenta o risco de trombose. O aumento está relacionado sobretudo aos métodos combinados com estrogênio. Existem opções eficazes sem estrogênio, mas a indicação deve ser individualizada.

“Anticoncepcional causa trombose?” é uma dúvida frequente no consultório. Notícias, relatos nas redes sociais e experiências de pessoas próximas podem fazer uma mulher iniciar o método com medo ou suspendê-lo sem orientação.

A resposta não cabe em um simples “sim” ou “não”. O termo anticoncepcional inclui métodos com composições, vias de uso e perfis de segurança diferentes. Além disso, o risco não depende apenas do medicamento: ele muda conforme as características de cada paciente.

O que é trombose?

A trombose ocorre quando um coágulo se forma dentro de um vaso sanguíneo e dificulta a circulação. Quando falamos sobre contracepção, a principal preocupação é o tromboembolismo venoso, que inclui a trombose venosa profunda, geralmente nas veias profundas das pernas ou da pelve, e a embolia pulmonar, quando parte do coágulo chega aos pulmões.

Infográfico explicando a trombose venosa, com comparação entre veia normal e veia com trombo, ilustrando a formação do coágulo, o bloqueio do fluxo sanguíneo e os principais riscos relacionados à trombose.
A trombose venosa ocorre quando um coágulo se forma dentro de uma veia, dificultando ou bloqueando a circulação do sangue. Conhecer os fatores de risco e os sinais de alerta é fundamental para um diagnóstico precoce.

Quais sintomas merecem atenção?

Na trombose venosa profunda, podem surgir inchaço em uma perna, dor ou peso na panturrilha, aumento de temperatura e mudança da coloração da pele. Na embolia pulmonar, podem ocorrer falta de ar súbita, dor no peito, palpitações, tosse com sangue, tontura ou desmaio.

Procure atendimento imediatamente diante de falta de ar súbita, dor no peito, desmaio ou inchaço doloroso importante em apenas uma perna. Esses sintomas não confirmam trombose, mas exigem avaliação urgente.

O anticoncepcional realmente aumenta o risco de trombose?

Depende do tipo de método. O aumento do risco está associado principalmente aos contraceptivos hormonais combinados, que contêm estrogênio e progestagênio. Esse grupo inclui pílulas combinadas, adesivo transdérmico e anel vaginal.[2–4]

Métodos sem estrogênio apresentam outro perfil. O DIU de cobre não contém hormônio. O sistema intrauterino liberador de levonorgestrel, o implante e as pílulas apenas com progestagênio não apresentam o mesmo aumento de risco observado com os métodos combinados. O injetável trimestral de acetato de medroxiprogesterona exige análise própria, pois algumas evidências sugerem possível associação com aumento de risco em determinados contextos clínicos.[2,5–7]

Ponto importante: não poder usar estrogênio não significa ficar sem opções contraceptivas. Existem métodos eficazes com composição e perfil de segurança diferentes.

Risco relativo e risco absoluto: por que essa diferença importa?

Quando uma notícia afirma que um medicamento “duplica o risco”, a informação pode parecer assustadora. Mas duplicar um evento raro continua resultando em um número absoluto pequeno.

Infográfico mostrando o risco absoluto de trombose em mulheres sem anticoncepcional, usuárias de anticoncepcional hormonal combinado, gestantes e mulheres no puerpério, demonstrando que a gravidez e o puerpério apresentam risco maior do que o uso de anticoncepcionais combinados.
O risco de trombose deve ser interpretado em números absolutos. Embora os anticoncepcionais hormonais combinados aumentem discretamente esse risco, ele continua baixo para a maioria das mulheres saudáveis e é significativamente maior durante a gravidez e, principalmente, nas primeiras seis semanas após o parto.
  • Risco relativo: compara quanto o risco aumenta ou diminui entre dois grupos.
  • Risco absoluto: mostra quantas pessoas realmente apresentam o evento em determinado período.

Em mulheres em idade reprodutiva que não estão grávidas e não usam contraceptivo hormonal combinado, estimativas frequentemente utilizadas situam o tromboembolismo venoso em aproximadamente 1 a 5 casos por 10.000 mulheres por ano. Entre usuárias de contraceptivos combinados, a estimativa costuma ficar em torno de 3 a 15 casos por 10.000 mulheres por ano, variando conforme a formulação e as características individuais.[3,4,8]

Gravidez, anticoncepcional e puerpério: como os riscos se comparam?

A gestação modifica naturalmente a coagulação do sangue. O risco aumenta durante a gravidez e se torna mais elevado no puerpério, especialmente nas primeiras semanas após o parto.[4,9]

Infográfico comparando o risco de trombose entre mulheres sem anticoncepcional, usuárias de anticoncepcional hormonal combinado, gestantes e mulheres no puerpério, demonstrando que a gravidez e o puerpério apresentam risco significativamente maior do que o uso de anticoncepcionais combinados.
A comparação do risco relativo ajuda a colocar as informações em perspectiva. Embora os anticoncepcionais hormonais combinados aumentem discretamente o risco de trombose em mulheres suscetíveis, esse risco é significativamente maior durante a gestação e atinge seu pico nas primeiras seis semanas após o parto.

Por que o estrogênio recebe tanta atenção?

O estrogênio pode alterar o equilíbrio entre fatores que favorecem e que limitam a coagulação. Em algumas mulheres, isso aumenta a predisposição à formação de coágulos. O efeito ganha maior importância quando se soma a outros fatores de risco, como trombose prévia, trombofilia, tabagismo, obesidade, cirurgia de grande porte ou imobilização.[2–4]

O tipo de progestagênio também influencia?

Nos contraceptivos combinados, o risco não depende apenas da presença de estrogênio. Dose, tipo de estrogênio, progestagênio associado, via de administração e características da usuária podem influenciar o perfil final.[3,8]

Por isso, a comparação não deve ser feita apenas pelo nome comercial. O mais útil é avaliar a composição e se aquela formulação é adequada para o contexto clínico da paciente.

Quais métodos contêm estrogênio?

Tabela comparativa dos principais métodos contraceptivos mostrando quais contêm estrogênio e sua relação com o risco de trombose. O infográfico compara pílula combinada, adesivo e anel vaginal, que contêm estrogênio e podem aumentar discretamente o risco de trombose, com métodos sem estrogênio, como pílula só de progestagênio, implante contraceptivo, DIU hormonal e DIU de cobre, que apresentam perfil de segurança favorável ou não aumentam o risco de trombose.
Nem todos os métodos contraceptivos apresentam o mesmo perfil de risco para trombose. Os métodos com estrogênio podem aumentar discretamente esse risco em mulheres suscetíveis, enquanto diversas opções sem estrogênio oferecem elevada eficácia e um perfil de segurança favorável quando indicadas corretamente.

Quem precisa de uma avaliação mais cuidadosa?

  • trombose venosa profunda ou embolia pulmonar atual ou prévia;
  • trombofilia conhecida ou síndrome do anticorpo antifosfolípide;
  • cirurgia de grande porte com imobilização prolongada;
  • puerpério recente;
  • tabagismo, sobretudo a partir dos 35 anos;
  • obesidade associada a outros fatores de risco;
  • hipertensão importante ou doença cardiovascular;
  • algumas doenças inflamatórias, oncológicas ou sistêmicas.

Ter um fator de risco não significa que todos os anticoncepcionais estejam proibidos. Significa que a escolha precisa ser feita método por método, usando critérios de elegibilidade reconhecidos.[1,2]

Quem tem enxaqueca pode usar anticoncepcional?

Enxaqueca sem aura

A enxaqueca sem aura não impede automaticamente o uso de todo método hormonal. A decisão considera idade, tabagismo, pressão arterial e outros fatores vasculares.

Enxaqueca com aura

Na enxaqueca com aura, os contraceptivos hormonais combinados são classificados como método de risco inaceitável pelos critérios do CDC, porque a condição já se associa a maior risco de acidente vascular cerebral isquêmico.[2]

Isso não significa ausência de alternativas. Métodos sem estrogênio podem ser considerados após avaliação individualizada.

Quem fuma pode usar anticoncepcional?

O tabagismo aumenta o risco cardiovascular. A combinação de cigarro, idade a partir de 35 anos e estrogênio merece atenção especial. Nos critérios de elegibilidade, o grau de restrição aumenta conforme a idade e o número de cigarros consumidos.[1,2]

Varizes impedem o uso de anticoncepcional?

Varizes isoladas não são a mesma coisa que trombose venosa profunda. Nos critérios do CDC, varizes simples não constituem contraindicação aos contraceptivos combinados.[2]

É preciso fazer exames antes de iniciar um anticoncepcional?

Na maioria das mulheres saudáveis, não é necessário solicitar uma bateria de exames laboratoriais antes de iniciar contracepção. História clínica, revisão de medicamentos, avaliação das contraindicações e medida da pressão arterial para métodos combinados costumam ser mais importantes.[2,10]

Toda mulher precisa investigar trombofilia?

Não. O rastreamento universal de trombofilias antes de prescrever anticoncepcional não é recomendado. A investigação pode ser considerada em cenários selecionados, como trombose pessoal em idade jovem, episódios recorrentes, localização incomum ou história familiar fortemente sugestiva.[1,2]

Como avaliamos essa situação durante a consulta?

Ginecologista Dra. Suyaluane Melo orientando uma paciente durante consulta sobre métodos contraceptivos, utilizando modelo anatômico do útero para explicar as opções disponíveis e individualizar a escolha conforme o perfil clínico.

A escolha não começa perguntando qual marca é “mais fraca”. Ela começa entendendo a mulher que utilizará o método.

  • histórico pessoal de trombose ou embolia pulmonar;
  • doenças e medicamentos em uso;
  • tipo de enxaqueca;
  • pressão arterial, tabagismo e outros fatores cardiovasculares;
  • cirurgias, imobilização e puerpério;
  • padrão menstrual, cólicas e sangramento;
  • desejo de engravidar e prazo reprodutivo;
  • preferência por usar ou evitar hormônios;
  • facilidade para lembrar de um método diário;
  • aceitação das possíveis mudanças no sangramento.
Fluxograma da avaliação clínica para escolha do método contraceptivo mais seguro, incluindo análise da história clínica, fatores de risco para trombose, enxaqueca, tabagismo, planejamento reprodutivo e preferências individuais da paciente.
A escolha do método contraceptivo é individualizada. Durante a consulta, são avaliados fatores clínicos, histórico de saúde, risco de trombose, desejo reprodutivo e preferências da paciente para indicar a opção mais segura, eficaz e adequada a cada situação.

Principais erros sobre anticoncepcional e trombose

  • acreditar que todo anticoncepcional apresenta o mesmo risco;
  • suspender o método por conta própria após ver um conteúdo alarmista;
  • escolher a mesma formulação usada por uma amiga;
  • não informar trombose prévia, tabagismo ou enxaqueca com aura;
  • confundir varizes com trombose venosa profunda;
  • solicitar exames de trombofilia sem indicação clínica.

Mitos e verdades

“Todo anticoncepcional causa trombose.”

Mito. O aumento do risco está relacionado principalmente aos contraceptivos combinados com estrogênio.

“Quem tem varizes não pode usar anticoncepcional.”

Mito. Varizes isoladas não representam, por si só, contraindicação aos métodos combinados.

“É obrigatório investigar trombofilia antes da pílula.”

Mito. O rastreamento de rotina não é recomendado para todas as mulheres.

“A gravidez e o puerpério aumentam o risco de trombose.”

Verdade. O risco é maior na gestação e se eleva ainda mais nas primeiras semanas após o parto.

“Existem métodos eficazes sem estrogênio.”

Verdade. DIUs, implante e pílulas apenas com progestagênio estão entre as alternativas possíveis, conforme o contexto clínico.

O que dizem as principais diretrizes?

Organização Mundial da Saúde

O WHO MEC classifica a segurança de cada método conforme condições clínicas e características individuais. A sexta edição, publicada em 2025, reforça a avaliação método a método.[1]

CDC

O U.S. MEC 2024 considera situações como enxaqueca com aura, trombose atual ou prévia, puerpério e determinados perfis de tabagismo na definição de elegibilidade para os métodos combinados.[2]

FSRH

A diretriz britânica destaca que os contraceptivos combinados aumentam o risco de tromboembolismo venoso, embora o risco absoluto individual permaneça pequeno.[3]

FEBRASGO

Os protocolos brasileiros reforçam o aconselhamento individualizado, o uso dos critérios de elegibilidade e a atenção especial ao puerpério.[9,11]

Quando este artigo pode não se aplicar ao seu caso?

Uso de anticoagulante, trombofilia conhecida, síndrome do anticorpo antifosfolípide, câncer em atividade, lúpus com fatores trombóticos, cardiopatias complexas, puerpério recente e cirurgia de grande porte exigem avaliação especialmente individualizada.

O que você leva deste artigo?

  • Nem todo anticoncepcional aumenta o risco de trombose.
  • O estrogênio é o principal componente relacionado ao aumento observado nos métodos combinados.
  • O risco absoluto permanece baixo para a maioria das mulheres saudáveis.
  • Gravidez e puerpério também aumentam o risco trombótico.
  • Existem métodos eficazes sem estrogênio.
  • Exames de trombofilia não são necessários para todas as mulheres.
  • A escolha deve unir evidência científica, segurança e preferências pessoais.
Retrato da Dra. Suyaluane Melo, médica ginecologista e obstetra em Aracaju (SE), utilizado como chamada para agendamento de consulta e avaliação personalizada da saúde da mulher

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Compromisso com informação baseada em evidências

Este conteúdo foi elaborado a partir de diretrizes e publicações científicas reconhecidas e revisado em julho de 2026. Recomendações podem mudar com a atualização das evidências.

O artigo tem finalidade educativa e não substitui uma consulta. A escolha do método contraceptivo deve considerar a história clínica, os fatores de risco, os objetivos e as preferências de cada paciente.

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